Prato do dia: O ateu
Ainda menina, com 9 anos, era muito curiosa, e gostava de
ouvir escondida as conversas dos adultos. Nem sempre conseguia ouvir tudo, mas
o suficiente para tirar minhas próprias conclusões. Lembro-me que os adultos
estavam na cozinha tomando o café da tarde num dia qualquer, e eu ouvia
atentamente os comentários sobre “o ateu”.
O ateu que morava na outra rua, não acreditava em deus. O
ateu não ia à igreja. O ateu não acreditava em vida após a morte. Foi tudo que
consegui escutar. Mas tais constatações deram asas a minha imaginação. Como
menina cristã, alguém que não acreditava em DEUS só poderia ser mau, horrível.
Na minha mente infantil, a casa do ateu deveria ser sombria, assemelhando-se a
uma casa dos filmes de horror. O ateu deveria usar uma capa preta, e ter cara
de gente que faz maldade para crianças e animais! Quanto medo eu tinha do deste
desconhecido misterioso! Desejava ter a sorte de nunca encontrá-lo. E nunca
encontrei. Nunca vi seu rosto, nunca soube seu nome. Ele apenas ficou conhecido
em minha vida como “o ateu”.
Infelizmente, podemos perceber que esse preconceito perdura
até hoje, embutido na educação de algumas famílias religiosas, que ainda não
conseguiram desmitificar o ateísmo, deixando em evidência seus dogmas
enferrujados, seus preconceitos. Eu vivencio esse preconceito. Se você é um
ateu ou ateia que ainda não revelou sua descrença, saiba que ao assumir, estará
exposto(a) a olhares tortos, carrancas e comentários maldosos . Seu nome
certamente será citado em rodas de fofocas, e você deve estar preparado(a) para
isso. Deve enfrentar o mundo de cabeça erguida, sem nunca esquecer seus
propósitos e ideologias. Se quisermos viver num mundo melhor, é essencial que
passemos por este processo. Ser julgado(a), perder amizades, sofrer preconceitos...
Você está preparado para ser “o ateu”, ou "a ateia" da imaginação de algumas crianças religiosas?
Eu estou nessa luta há algum tempo, e lhes digo: vale a pena! É gratificante poder ser e viver quem se é. O
problema está na mente de quem julga, e não em nós!
Hoje, completo a ideia com duas frases de Nietzsche:
"Torna-te quem tu és!"
"Cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar."
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